Mitos Bélicos

Não precisamos ir muito a fundo no assunto, sobre munições e armas, para começar a ouvir muita besteira e ditos populares, mitos sobre armas sem nenhum fundamento.

O conhecimento popular, muitas vezes, vago e sem nehum embasamento técnico, gera algumas histórias fantasiosas que com o tempo se tornaram mentiras tão sólidas que se tornaram verdades, ou quase isto. Como já dizia o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels “Uma mentira dita mil vezes se torna uma verdade”.

A “BALA” QUE ANDA

Vamos falar primeiramente de um calibre bem popular, o .22 Long Rifle. Este calibre, muito usado no Brasil e no mundo, por ser barato e de fácil acesso, é dono de uma das histórias mais fantásticas que se tem notícia: seu projétil tem o poder de sempre parar no coração. Este tipo mágico de projétil, de acordo com o conhecimento popular, quando penetra o corpo costuma entrar em artérias, e vai “caminhando” até o coração, matando assim a pessoa atingida. Confesso que já olhei milhares de munições de .22LR e nunca vi pernas ou mãos nele que o façam caminhar no corpo de alguém. O fato real sobre o perigo de um calibre anêmico como o .22LR está no fato dele ser

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Revovler calibre .22LR e suas pequenas munições.

de calibre tão pequeno que é difícil para o cirurgião pinçar e retirá-lo do corpo, sendo necessário uso de equipamentos cortantes para abrir o ferimento e subtrair o chumbo, ou seja, para retirar o projétil alojado tem que fazer mais estrago do que o projétil fez ao entrar, o que nem sempre é viável.

Outra coisa que pode ter gerado o mito está no fato de que ele sendo muito leve e veloz, facilmente ricocheteia ao atingir ossos, e para em um local não retilíneo com o ângulo de tiro em relação ao local que, finalmente,  fica alojado.

O CARREGADOR COM MUNIÇÕES INTERCALADAS

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Desenho da parte interna de um carregador bifilar de Glock.

A quase nove anos na PMESP já vi e ouvi muito sobre este mito, principalmente de policiais proprietários de pistolas no calibre .380ACP, que costumam colocar de forma intercalada no carregador da arma munições ogivais e expansivas.

Sempre que perguntei sobre este costume, nunca obtive uma resposta sólida e com embasamento técnico, ficando mais para achismo do que para qualquer outra coisa, principalmente ao lembrarmos que cada tipo de projétil tem uma finalidade específica quando se fala de seu formato (Ogival = perfuração e transfixação; e ponta oca = expansiva impactante).

Se pensar que o uso da arma do policial, mesmo de folga, é para defesa pessoal, é descartado por menor eficiência em parar um alvo humano, a munição do tipo ogival, logo que o risco de ter que dar mais tiros para tirar de combate e o perigo de que o projétil transfixe e acerte alvos que não se quer acertar também é maior. A munição de ponta oca tem sua eficiência comprovada em testes laboratoriais em gelatina balística, o que torna ela superior do que a ogival para o fim “defesa pessoal”, então, não existe uma explicação lógica para intercalar cartuchos em um carregador. O que já presenciei foi alguns policiais reclamando do preço absurdo de munições do tipo expansiva, principalmente do tipo +P para calibre .380ACP e por não ter todas as munições deste tipo, intercalam, copiando o que já viram de policiais “mais experientes”. Creio que se deve usar uma ou outra, de acordo com o uso da arma.

A POLÍCIA USA MUNIÇÕES “DUM-DUM”

Já ouvi algumas pessoas leigas perguntando o que são as tais munições “Dum Dum“, confesso que é uma história interessante, mas contar várias e várias vezes é chato demais, contudo, resumidamente, foram munições alteradas em campo de batalha, por soldados ingleses, e que causavam mais danos que os projéteis normais, alguns com efeitos até mesmo de causar mais dano que o próprio ferimento, ou seja, projéteis contaminados com substâncias tóxicas ao ser humano e/ou que fragmentavam muito ao acertar o alvo, dificultando o serviço dos médicos de campo, o nome “Dum Dum” se dá pela cidade em que foram feitas, Dum Dum, na Índia.

Mas, aonde é que tiraram a associação de tais munições de rifles potentes, com munições de pistolas modernas no calibre .40S&W, por exemplo? Primeiro vejamos esta ridícula reportagem do site de noticias do IG.

Alguns gênios da mídia brasileira que não buscam conhecimento naquilo que pretendem publicar, associaram munições expansivas de pistolas, a munições antigas conhecidas como “Dum Dum”, ocasionando até uma sensação de sadismo por parte dos policiais brasileiros quando sai a frase “Projéteis do tipo ‘ponta oca’ foram banidas em conflitos internacionais por serem considerados altamente letais e desumanas”.

Em uma rápida busca pelo Google, se pode verificar que existem diferenças, e muitas, das munições do tipo “Dum Dum”

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Com as munições modernas expansivas, que são feitas para causar impacto no oponente.

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Fica fácil entender como a mídia consegue facilmente distorcer o serviço sério de profissionais de segurança, por falta de conhecimento no assunto abordado, somado com preguiça de pesquisar um pouco mais.

Bem, então é isto, espero que tenham gostado deste texto e gostaria de ler a opinião de quem leu, gostando ou não. Críticas são bem vindas. Forte abraço.

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Policial Militar no estado de São Paulo desde 2006, estudante de Psicologia e entusiasta do mundo das armas.

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