“ESPECIALISTAS EM SEGURANÇA PÚBLICA” E A MANIA DE FALAR EM ATIRAR NA PERNA

atirar na pernaEm uma conversa descontraída pelo Whatsapp, em um grupo em que somente eu sou policial, um amigo postou uma foto de um alvo de silhueta humanoide com a legenda “Atirar na perna? Como? Se no alvo que treinei nem perna tinha”. Realmente os alvos do tipo “silhueta humanoide” não costumam ter nada além de tronco, membros superiores e cabeça.

A piada gerou uma frase após: Toledo, discorra sobre isso. Então, vendo que a explicação foi bem recebida pelos amigos do grupo, resolvi compartilhar com os leitores deste site.

Primeiramente precisamos lembrar que audiência é um produto que precisa ser vendido e um dos mecanismos que fazem a audiência dos telejornais são ocorrências policiais. Também se tornou comum em alguns programas mais sensacionalistas a presença, muitas vezes até ao vivo, de pessoas cujo prefixo do nome é: “Especialista em Segurança Pública”. Curioso que até hoje eu nunca vi um curso específico nesta área que desse conhecimento no uso e manuseio de armas de fogo para que algum especialista pudesse julgar certa ou errada a ação tomada por um policial. Os únicos cursos que geram especialistas em segurança pública são os fornecidos para os próprios membros das forças de Segurança Pública, ou seja, Policiais Civis, Militares, Peritos e etc.

É sempre necessário olhar estas figuras com uma certa desconfiança, principalmente o conteúdo daquilo que falam, para não acabar comprando uma ideia errada de ação ou de um conjunto de ações que deveriam ter sido tomadas em ocorrências em destaque na mídia.

Uma coisa que é bem comum ouvir de alguns especialistas é que em alguns casos “um tiro na perna resolveria a ocorrência” ou ate “com o treinamento correto um tiro na perna poderia ter salvo a vida do infrator”. Se ouvir uma frase destas frases, já descarte imediatamente a possibilidade deste cidadão “entendedor” ser um especialista no assunto, ele na verdade é um charlatão. Vamos então explicar os porquês de que nunca se deve atirar na perna de infratores da lei com armas de fogo.

Antes de mais nada é importante dizer que todo uso de arma de fogo, por parte de agentes policiais, deve ser legítimo pelo ponto de vista jurídico.

Sabendo disso, dizemos então que o uso da arma de fogo tem que ser proporcional, isso quer dizer que alguém tem que estar ameaçando a vida do policial ou de terceiros, com outra arma de fogo ou  qualquer outro objeto que tenha capacidade de letalidade, como uma faca, uma garrafa quebrada, um lata afiada, etc. Disparos de arma de fogo com munição real jamais podem ser efetuados em situações em que apenas bens materiais estejam em perigo, logo, não se atira em alguém apenas por ser ladrão, mas por estar pondo a vida de alguém em risco.

alvo
Na imagem acima pode ser visto um alvo clássico em estandes de tiro. Nele pode ser visto em tons mais claros as áreas cuja probabilidade de não ter que efetuar mais de um disparo certeiro é mais alto.

Ao efetuar disparos de arma de fogo contra um criminoso que está pondo em risco a vida de alguém, as mãos deste agressor são observadas, não as pernas,  pois não é possível efetuar disparos ou esfaquear alguém com os pés ou joelhos.

O uso de arma de fogo tem que ocorrer única e exclusivamente para deter a injusta agressão contra sí ou outrem, não para matar alguém. Tão logo se entenda isso, fica claro que atirando nas pernas de um criminoso seu armamento pode ainda ser acionado. Atirar nas pernas de alguém que carrega uma faca, por exemplo, pode não só não incapacitá-lo, como pode ainda permitir que o criminoso se aproxime o bastante para esfaquear o policial ou outras pessoas.

Os alvos do tipo humanoide costumam ter marcas pontilhadas que são chamadas de “garrafão”. Esta área do alvo não é a escolhida porque é a área de maior letalidade, mas sim por ser a área que se necessita atingir o agressor menos vezes para que ele saia de combate. Para um policial, a morte do criminoso é uma consequência, não a intenção na hora da ação de repelir a agressão do criminoso.

Em poucas palavras, a letalidade está diretamente ligada à capacidade de tirar o oponente de combate, isso não quer dizer que necessariamente seja este o objetivo do policial.colete

Para finalizar o assunto, é fácil também o entendimento de que um disparo na perna pode facilmente transfixar o alvo, ricochetear no chão e acertar alguém que nada tem haver com a ocorrência, gerando problemas criminais ao policial e pondo a vida de inocentes em risco.

Então senhores “Especialistas em Segurança Freelancers”, estudem um pouco antes de falar besteiras em público para evitar dar “bom dia à cavalo”.

Obrigado

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Policial Militar no estado de São Paulo desde 2006, estudante de Psicologia e entusiasta do mundo das armas.

3 COMENTÁRIOS NO ARTIGO: ““ESPECIALISTAS EM SEGURANÇA PÚBLICA” E A MANIA DE FALAR EM ATIRAR NA PERNA

  1. Muito interessante sua abordagem sobre este tema! Não sou policial, simplesmente um cidadão comum e nunca antes tive acesso a uma informação tão esclarecedora sobre esta lenda urbana de se atirar na perna de alguém! Por acaso descobri o seu site e gostei muito das informações claras, objetivas e instrutivas sobre o uso correto e justo de armas de fogo! Gostaria de ter a mesma liberdade que o cidadão dos Estados Unidos da América tem sobre o uso de armas de fogo, só que nos EUA isto é um direito constitucional previsto na 2ª Emenda da Constituição e o Brasil é um país de TERCEIRO MUNDO com boa parte da população mais interessada em pão e circo, formada em boa parte por “tralhas e/ou bandidos” em todas as esferas da sociedade, principalmente do poder vigente! Sou morador da Cidade do Rio de Janeiro e a incompetência, o descaso e principalmente o roubo, cometidos pelos cidadãos de nosso País e principalmente pelos políticos estão destruindo não somente a minha cidade e o meu estado, mas todo o nosso País! Nunca quis ir embora do Brasil, mas não vejo solução para esta m… de País!

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