VISITA À FORJAS TAURUS S.A

Olá amigos, sejam bem vindos a mais um texto. Desse vez trago a vocês uma experiência que tive há pouco tempo. Tive a oportunidade de visitar a fabrica da Taurus, conhecida fabricante nacional de armas de fogo. Antes de continuar é muito importante dizer o seguinte: sou totalmente contra o monopólio do setor que ocorre no Brasil, para mim o mercado deveria ser aberto e mais fábricas serem instaladas em solo nacional, não só de armas, mas também de munição e acessórios. Em segundo lugar, neste artigo eu não vou falar mal ou bem da fábrica/marca, vou falar sobre o que eu vi, sobre o que eu achei, não algo que alguém me contou. E antes que alguém ao menos pense, imagine ou sonhe: não, eu não recebi um centavo sequer da fábrica para fazer esta matéria.

Tudo começou há quase um ano atrás, quando em conversa com um dos diretores da Taurus, surgiu um convite para visitar a fábrica e conhecer de perto sua linha de produção e produtos. Levando em conta que a fábrica mudou de local e todo o processo de fabricação e montagem foram modernizados, me interessando em fazer a visita. Mas Infelizmente não pude ir à fábrica no ano passado. Foi no dia 16/03/2017, uma quinta feira, o dia que eu pude finalmente fazer minha tão esperada visita à fabrica.

A cidade em que a nova fábrica da Taurus está instalada é São Leopoldo – RS, uma cidade que fica a cerca de 30km da capital Porto Alegre e é também a cidade da fabrica da Rossi, ou o que resta dela.

Primeira arma produzida em série com matéria prima totalmente nacional. Arma dada ao ex presidente Getúlio Vargas, e devolvida à Taurus, pelo Exército, anos depois sua morte. Importante lembrar que Getúlio Vargas cometeu suicídio com um revólver Colt Police Positive em calibre .32 S&WL
Primeira arma produzida em série com matéria prima totalmente nacional. Arma dada ao ex presidente Getúlio Vargas, e devolvida à Taurus, pelo Exército, anos depois sua morte. Importante lembrar que Getúlio Vargas cometeu suicídio com um revólver Colt Police Positive em calibre .32 S&WL

De antemão fui avisado que eu não poderia fazer qualquer tipo de entrevista oficial, pois a empresa que faz a assessoria de imprensa da Taurus não permitia mais isso, tive apenas uma conversa informal, a qual eu obviamente não posso publicar, com um dos diretores e outros funcionários da Taurus.

Fui recebido e muito bem tratado pelo Sr. Eduardo Mingheli, Diretor de Marketing da Taurus, que literalmente abriu as portas da fábrica para mim, mesmo com uma agenda apertada, entre uma reunião e outra e uma viagem e outra, ainda assim conseguiu me receber, conversar e apresentar a fábrica e seus novos produtos. Logo que cheguei fomos à sua sala para uma apresentação institucional da empresa. Alguns números me foram passados, como o da Taurus ser a quarta maior fabricante de armas curtas do mundo e a maior fabricante de revólveres do mundo, produzindo, em número, mais revólveres que as renomadas Smith & Wesson, Colt e Ruger,  não pude questionar estes números, afinal de contas eu não tinha nada em mãos para refutar estas informações. Um detalhe interessante que notei em sua sala, foi um revólver Taurus, dado ao ex presidente Getúlio Vargas, e este modelo foi a primeira arma produzida pela empresa, em série com toda a matéria prima nacional.

Sr. Danilo me explicando um pouco do processo de MIM.
Sr. Danilo me explicando um pouco do processo de MIM.

A fabrica é dividida basicamente em grandes galpões, onde cada galpão representa um setor de fabricação diferente, todas as armas produzidas pela Taurus são feitas ali naquela planta. Em um galpão mais ao fundo do terreno, funciona um departamento chamado de MIM (Metal Injection Molding), este é o setor responsável pela produção de peças pequenas  das armas. Peças como o gatilho, reténs em geral, cão, bloco da culatra, entre outros. Uma substância formada por polímero e metal é injetado dentro da fôrma das peças, essa peça é então passada para um funcionário, que retira suas rebarbas, este objeto, de cor bem escura e maior que o normal, ainda é muito frágil, e pode ser quebrada com facilidade, mas após o polímero evaporar, seu tamanho é reduzido em exatos 23% e o ítem em aço que conhecemos surge.

Fases de usinagem do frame de uma pistola da série metálica.
Fases de usinagem do frame de uma pistola da série metálica.

Em outro galpão é feita a usinagem das diversas peças de aço das armas. O cano, tambor, frame  e ferrolho de todos os revólveres e pistolas ( frame de pistolas apenas da linha metálica, obviamente) são feitos ali. Em maquinários controlados por um computador, em que a ajuda humana é necessária apenas para colocar a arma em uma nova etapa de fabricação. A usinagem das peças acontece basicamente em 4 etapas, (1) uma em que o desenho é feito na peça de aço, outra em que é modelado os desenhos básicos da peça, (2) em outra etapa  estes desenhos ficam mais detalhados e (3) finalmente a peça sai pronta,  com todos os furos e profundidades que conhecemos. Diferentes máquinas são usadas para fazer cada uma destas etapas, ou seja, cada máquina faz apenas um trabalho, não vários. Após a peça ser produzida ela é levada ao que eu chamei de um enorme tamboreador (para quem não sabe, tamboreador é algo usado para se lavar cápsulas, antes de fazer a recarga das munições) onde inúmeras pastilhas enormes, cônicas e ásperas batem na peça de aço e fazem seu polimento, limpeza e retira as rebarbas das quinas.

Linha de produção da fábrica. A cara de poucos amigos é por eu não estar com um fuzil na hora da foto, rsrs
Linha de produção da fábrica. A cara de poucos amigos é por eu não estar com um fuzil na hora da foto, rsrs

Saindo dali, vamos para o galpão onde é feito o tratamento das peças, neste espaço é onde as pistolas, revólveres, submetralhadoras, carabinas e fuzis, são oxidadas, inoxidadas, ou ganham outros tipos de tratamento quaisquer. É importante dizer que, apesar de ainda não terem número de série, todos os componentes de uma arma a acompanham desde o inicio do processo até o final, as peças não são trocadas, facilitando assim a analise de possíveis problemas durante o processo de fabricação. É interessante também dizer que a movimentação das peças dentro da fábrica se da por uma espécie de “trem” que circula pela fábrica em horários pré-programados, coletando e entregando as peças pelos departamentos da fábrica.

Leia também: Menos desarmanento e mais dignidade

Após sair deste setor, fomos para a linha de montagem das armas, e lá é o local onde eu mais me impressionei. A tecnologia empregada na linha de montagem (não só nela, obviamente) é de ponta. O presidente Marco Salvany implantou na empresa o sistema SAP, que faz todo o controle de estoque, emissão de NFs, pagamentos, novos pedidos, além de gerenciar todas as outras fases da produção. A linha de montagem também funciona usando sistema de gerenciamento SCM (Supply Chain Management) onde o fornecedor de algumas de suas peças, que são terceirizadas, trabalham dentro da fábrica, entendendo assim como seu produto será usado, as necessidades do cliente, conhece também os problemas que seu produto possa, por ventura, ter. Isso gera um menor custo à fabrica, maior qualidade dos produtos utilizados, dentre outros benefícios.

Assim que o material entra na linha de montagem, ele passa por um portal de RFI (Radio Frequency Interference) que lê os códigos de barra e avisa o fornecedor de que aqueles produtos estão sendo usados e que a fábrica precisa ser reabastecida, gerando também as notas fiscais e ordens de pagamento daquelas peças. O produto fica “estocado” em um local que a Taurus chama de “supermercado”, uma parte do galpão com diversas caixas coloridas, onde cada cor de caixa representa um tipo de peça. As pessoas pegam então as caixas que precisam para montar as armas de sua linha de produção.

Taurus PT109 Millenium G2, 9mmP. Este modelo ainda se encontra em testes no CAEX e não teve a venda liberada no Brasil, mas de acordo com Eduardo Mingheli, é hoje uma das pistolas mais vendidas nos EUA.
Taurus PT109 Millenium G2, 9mmP. Este modelo ainda se encontra em testes no CAEX e não teve a venda liberada no Brasil, mas de acordo com Eduardo Mingheli, é hoje uma das pistolas mais vendidas nos EUA.

A linha de montagem, apesar de simples, é complexa. Existe uma linha para cada modelo/série de produtos, ou seja, uma linha de montagem especifica para a linha PT100 MILLENIUM G2, outra linha de montagem para a serie 800 e Hammer (nova série de pistolas), outra linha de montagem para a série metálica (as baseadas na Beretta 92), e assim por diante.

Não existe na linha de montagem das pistolas ferramentas, todas elas são montadas por pessoas normais, não por armeiros, a linha de montagem é totalmente padronizada, cada pessoa tem uma função. Eles recebem o frame vazio, e uma pessoa coloca o jogo de gatilho, outra coloca uma mola, outro coloca outra peça, até no final, onde uma pessoa, coloca o ferrolho em um dispositivo e o chassi em outro, esse dispositivo verifica se os “dentes” destas peças estão corretos, caso estejam, a arma é liberada, caso não estejam, a arma é retirada de produção, enviada a um laboratório e é feita uma análise de qual foi o problema, quem é o culpado por aquilo, e então uma solução é tomada. Caso a arma passe, ela é enviada para o teste de tiro. Sim, de acordo com José Danilo, Analista de Produtos da Taurus, e também com Mingheli, 100% das armas fabricadas são testadas, os testes são feitos usando no mínimo os 3 os carregadores que vem com a arma, cheios. (Eu bem que gostaria de ser empregado como “testador de armas”, visto que cada um deles efetua cerca de 2000 disparos por dia 😂😂😂).

Após as armas passarem pelo teste de tiro, ela é colocada em outra máquina, onde é feita uma nova limpeza para remover as marcas de tiro do ferrolho e cano, a arma então é enviada à última parte da montagem, onde é feita a gravação do número de série no cano, ferrolho e no frame da arma ( em uma chapa de metal dentro do frame, no caso das armas feitas em polímero). Quando esta etapa termina, a arma passa a existir fisicamente, ela então é embalada e já fica pronta para ser enviada ao cliente. Importante dizer que, tirando as armas enviadas para os EUA, que devem ter gravadas em si o importador, não é possível identificar para onde ou quem serão entregues as armas produzidas, visto que não há qualquer outro tipo de identificação “extra” nas armas produzidas, o processo de fabricação e montagem é o mesmo para todas as pistolas ou quaisquer outras armas fabricadas.

Dentro da área de prototipagem pude manusear algumas das armas da Taurus, dentre elas o novo fuzil T4, em 5,56x45mm que é uma cópia da já aclamada plataforma AR15/M16/M4 e a nova pistola TS40 em .40S&W, pistola de percursor lançado e ação híbrida.
Dentro da área de prototipagem pude manusear algumas das armas da Taurus, dentre elas o novo fuzil T4, em 5,56x45mm que é uma cópia da já aclamada plataforma AR15/M16/M4 e a nova pistola TS40 em .40S&W, pistola de percursor lançado e ação híbrida.

Dentro da linha de montagem existe ainda alguns laboratórios, onde são testadas algumas peças. Com robôs controlados por computadores, as peças são tratadas como se estivessem em uso nas armas, é exercida sobre elas suas funções. Obviamente as peças testadas são colhidas por amostragem, visto que a quantidade de material que chega diariamente à fábrica, é enorme.

Há também, a área de prototipagem, lá é onde os engenheiros e designers trabalham criando e testando novos produtos. Algo parecido com um teste de tortura é feito neste departamento. Teste de queda com mais de 2,60m, a arma é enterrada em um tanque de areia aquecida, simulando um deserto, é colocada em um tanque que sopra um pó extremamente fino, que infiltra em absolutamente todos os pontos da arma, é imersa na água, congelada, super aquecida, congelada novamente, superaquecida de novo, e assim por diante, e então testes são feitos.

A nova fábrica da Taurus, em São Leopoldo-RS é moderna, extremamente informatizada, sistematizada e padronizada. A interferência humana no processo de fabricação é mínimo. Não estou dizendo aqui que os produtos Taurus não apresentam problemas, estou dizendo que a empresa tem feito o possível para corrigi-los e tenta reconquistar a imagem que, por motivos justos, foi queimada perante seus consumidores. A fabrica adota um tipo de produção chamado de Lean Manufacturing, também conhecido como Sistema Toyota ou Produção Enxuta, evitando assim superprodução, estocagem, movimentação de produtos em excesso, dentre outros problemas e desperdícios comumente encontrados nas indústrias.

Leia também: História das armas de fogo:canhão de mão,matchlock e wheellock

É possível ver nessa foto, além dos outros modelos, a semelhança entre a antiga série 800, com a nova série TH, apesar de serem esteticamente semelhantes, seu mecanismo interno foi totalmente alterado.
É possível ver nessa foto, além dos outros modelos, a semelhança entre a antiga série 800, com a nova série TH, apesar de serem esteticamente semelhantes, seu mecanismo interno foi totalmente alterado.

De acordo com Eduardo Mingheli, o processo de montagem de armas na Taurus pré CBC era totalmente manual, armeiros faziam parte desta etapa, e caso as peças apresentassem problemas, eles eram corrigidos ali mesmo na mesa, algo que, para uma cadeia de fabricação, é inadmissível, pois as peças são gastas antes mesmo de serem usadas. Não existia um padrão de fabricação e montagem, e por isso a quantidade de problemas que ocorriam eram notoriamente maiores. Além disso, o esforço para atender e sanar problemas dos clientes era menor.

É muito importante dizer que todos os modelos disponíveis hoje no mercado são produtos criados ainda na administração antiga da Taurus. As armas pós CBC começaram a ser lançadas agora, com a série 800C, e as novas séries que serão lançadas até o fim do ano, que são as linhas Hammer, Striker e o fuzil T4. Temos que entender que essas armas sim serão o ponto chave para sabermos se a Taurus realmente mudou, pois estas são armas desenvolvidas, criadas e, o obviamente, produzidas, por uma “nova” empresa, uma companhia que não só quer, mas que precisa ter seu nome limpo junto ao mercado.

Acredito que, caso suas novas armas sejam bem sucedidas, aos poucos os modelos antigos serão retirados de linha, principalmente os que apresentaram mais problemas, e apenas as armas da nova administração estarão em seu catalogo de produção. O que é totalmente justo, pois o que o consumidor brasileiro quer é qualidade no produto. Afinal de contas, estamos falando aqui de uma arma de fogo, não de um objeto qualquer. Uma arma tem que sair da caixa e funcionar perfeitamente, caso contrário, seu operador, durante uma batalha, pode morrer por conta de seu equipamento, como já aconteceu, continua acontecendo e esperamos que, no mínimo, passe a acontecer com uma frequência cada vez menor.

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Criador do blog Firearms Brasil. Atirador Informal, Técnico em Informática, mineiro e apaixonado pelo mundo das Armas de Fogo.

11 COMENTÁRIOS NO ARTIGO: “VISITA À FORJAS TAURUS S.A

  1. Millennium g2, vendida há anos nos EUA , o mercado exigente doundo, aqui ainda tá em testes. Tá de brincadeira.

  2. Parabéns pela matéria! Gostaria de saber mais sobre as novas pistolas dá Taurus ( Hammer e Striker), oque vc achou dessas novas pistolas? Data de lançamento aqui no Brasil?

    1. Olá amigo, o lançamento está previsto para Julho deste ano, aparentemente as armas são totalmente diferentes do que já vimos, mas só após seu lançamento poderemos falar com certeza sobre as armas. Um abraço

  3. Espero que resolvam os problemas com esta nova linha hammer, devo comprar uma pistola em agosto e se não houver nenhuma novidade positiva, vou escolher outro fabricante

  4. Ricardo, tudo bem?! Sou CAC e há pouco tempo comprei uma PT1911, na qual veio também com problema, mas como já faziam parte dos meus planos, hoje internamente não existe quase nada da Taurus. Tomará que esta linha de novos produtos sejam realmente diferentes e bons, pois além de CAC, sou gaúcho, tive a chance de ir até a fábrica, mas venho perdendo orgulho desta marca. Bom, como diz o ditado, “a esperança é a última que morre”, com o seu artigo, pelo menos mantenho o pouco que resta. Parabéns pelo trabalho.

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