Colt 1911 – Parte II

Um dos formatos de competição de tiro é o “NRA Bullseye Pistol”, que foi criado seguindo o padrão de pistolas de uso militar. Essa competição requer expertise em pistolas .22 LR e .45 ACP, como a 1911. A economia pós guerra ajudou na popularização deste modelo de pistola, pois, além de ser usada militarmente, podia ser usada também para o esporte. O modelo 1911 era encontrado em excesso nos batalhões do Exército, assim como também eram trazidas como um troféu do capo de batalha. Armeiros que aprendiam a mecânica da arma militar eram capazes de transformá-la da melhor forma possível em uma arma de competição. Diversos fornecedores de armas, como Pachmayr e Kings Gun Works tiveram uma enorme demanda para produzir modelos customizados da 1911.

Enquanto as competições formais de tiro ao alvo tomavam conta do país na era pós guerra, um movimento ia surgindo de forma silenciosa, um movimento que mais tarde seria conhecido como “Tiro Prático”. Por muitas décadas, mas, principalmente na de 50, muitas das instruções de tiro para as forças policiais eram baseadas em saque rápido sem visada ou o tiro instintivo com uma mão, atirando na altura da cintura. Essa técnica, mesmo tendo bons efeitos a curta distância, rapidamente de tornou ineficaz a distâncias mais longas.

Uma das primeiras pessoas a perceber as limitações do tiro na altura da cintura foi um jovem Oficial da Marinha Americana, Jeff Cooper. Ele entendeu que para parar um criminoso de forma eficaz, você deveria fazer um tiro rápido e certeiro antes que este pudesse completar sua ação. Cooper, com sua experiência da 2ªGG, e com um pensamento visionário, inventou uma técnica de tiro que logo ficaria conhecida como “Modern Technique” (Técnica Moderna).

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Jeff Cooper utilizano a Técnica Moderna (“Modern Technique”)

O método de Cooper se baseava em sacar a arma com uma mão um pouco mais leve, e levá-la até o encontro da outra mão, esta, mais forte e pesada; rapidamente alinhar os olhos com a massa, alça de mira e alvo para finalmente efetuar um disparo preciso. Esta técnica foi adaptada para ser usada com qualquer tipo de pistola, mas para se explorar sua total efetividade deve ser usado uma pistola modelo 1911 em .45 ACP, uma arma precisa, poderosa e confiável em confronto. Cooper nomeou oficialmente esta técnica com o nome em latim, Diligentia-Vis-Celeritas (D.V.C), que em português significa, Precisão-Força-Velocidade.

Os escritos e ensinamentos de Cooper sobre o assunto, juntamente com os de Charles Askins, Ray Chapman, Jack Weaver, Thell Reed e muitos outros, ajudaram a moldar o pensamento de uma geração inteira de policiais, e hoje, esta técnica, permanece como base de treino para a doutrina de tiro de combate policial. A propagação da D.V.C foi um dos fatores principais pelo qual houve a troca, na década de 80/90, de revólveres para pistolas semiautomáticas.

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Competidora usando uma 1911 totalmente customizada em uma competição de IPSC.

Cooper também teve um importante papel na criação da “International Practical Shooting Confederation” (IPSC) em 1976, e foi o primeiro presidente desta confederação. O IPSC criou um quadro de competições organizadas, e rapidamente se tornou o formato de competição favorito de milhares de atiradores com pistola. O IPSC se ramificou, e recentemente foram criadas novas categorias, como o “Cowboy Action Shooting“, ‘IDPA, USPSA 3-Gun, e diversas outras.

Toda uma indústria baseada na criação de partes, acessórios, criações customizadas, centros de treinamentos e competições formais, cresceram à sombra da pistola 1911, e hoje, o projeto desta pistola permanece como um padrão de competição internacional. Na verdade, a urgência da “Técnica Moderna”, do tiro prático e do porte de armas, resultou no renascimento de interesse no modelo 1911.

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Comparação de tamanho entre diferentes pistolas modelo 1911, ou baseados nela.

Com o crescimento do Tiro Prático, veio uma grande preocupação com a segurança pessoal, e pela responsabilidade da segurança de terceiros. Com o crescimento das taxas de crimes nos anos 80/90 uma fagulha se ascendeu no povo americano, e movimentos explodiram ao redor do país pedindo licenças de porte de armas. Hoje em dia, quase todos os estados americanos oferecem alguma forma de que o civil possa portar uma arma de fogo, no mínimo velada, e a escolha da arma de porte de muitos é o famoso projeto 1911, seja ela  “Full size” ou “compact size” (compacta) para que seja melhor portada quando velada.

Em 1985 o Exército Americano adotou a pistola Beretta M9 em 9mm Parabellum como arma secundária principal, com esperança de criar uma melhor interoperabilidade com os países aliados na OTAN. Dezenas de milhares de militares entregaram suas pistolas 1911 para usar as novas Beretta M9, e com toda certeza, ao menos uma lágrima foi derramada em memória dos 70 anos de serviço desta arma.

As dolorosas lições de combate do passado voltaram à tona, como em um ciclo. O poder de parada do calibre 9mmP não é mais tão potente como era na época em que foi introduzido, em 1902. Tendo isso em vista, os militares americanos ressuscitaram a pistola modelo 1911 em .45 ACP, e armaram suas forças de operações especiais com esta arma. Mais duas medalhas de honra foram dadas, em 1993, para a Força Delta dos USA(US Delta Force), ao Sargento Mestre Gary Gordon e ao Sargento de Primeira Classe Randall Shughart, por suas ações na Somália, que foram imortalizadas depois no livro e filme “Black Hawk Down“. Depois que Shughart foi ferido fatalmente, Gordon continuou sua luta, até a morte, usando sua pistola 1911 para proteger um dos pilotos feridos do helicóptero.

Hoje em dia, quando um radical terrorista tenta machucar, de alguma forma, a América, no coldre do soldado que o combate está uma pistola 1911. Após 100 anos, o projeto desta arma é mais popular do que nunca.

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Dentre todas as fotos que tenho empunhando armas, esta é a que mais gosto, estou com uma IMBEL 1911 monofilar em .45 ACP.

Este modelo tem sido copiado através dos anos por inúmeras marcas de diferentes países, inclusive o Brasil com a Taurus PT1911 em .45 ACP e .38 Super Auto, além das armas da IMBEL em que TODOS os seus modelos de pistolas são baseados no projeto da 1911, seja a MD1 em .380 ACP, ou a própria 1911 monofilar em .45 ACP.

Obrigado John Moses Browning, por ter inventado uma peça tão importante para a história o mundo, para a defesa de nossa sociedade e um ícone entre as armas de fogo. Não há o que dizer, a 1911 é sim a pistola mais conhecida e bem aceita de todos os tempos, no mundo todo.

Agradeço de novo ao meu amigo Bruno Amaral por ter me pedido este artigo, é um prazer enorme falar desta arma, da arma que, de todas, a que mais gosto e tenho prazer em atirar.

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Criador do blog Firearms Brasil. Atirador Informal, Técnico em Informática, mineiro e apaixonado pelo mundo das Armas de Fogo.

6 COMENTÁRIOS NO ARTIGO: “Colt 1911 – Parte II

  1. Tenho uma .45 cedida pelo EB, como se fosse acautelada! Ou seja, não é minha, mas o EB cede para que eu possa portá-la. A arma é de 1940. Pergunto: Seria seguro atirar com essa arma utilizando o calibre .45+P? Já fiz essa pergunta uma dezena de vezes e já ouvi outra dezena de conselhos distintos! Agradeço sua atenção!

    1. Pode atirar sem medo amigo, se a arma for uma Colt 1911 pode ter certeza que ela é muito robusta e vai aguentar sem problemas o tranco do .45+p, principalmente pelo fato de que as munições CBC, apesar de +P, tem a potencia menor que munições estrangeiras, pois usam menos propelente que o normal.

  2. Amigo, boa noite. Tenho CR na 4 RM. Foi oferecido a mim, uma Colt 1911, .45 ACP original, 3 carregadores. Está em ótimo estado. Me foi pedido R$5.500 reais, ela está no CR de um colecionador da 2 RM, mas conheço pouco sobre o mercado da 1911. Estou com medo de fazer o negócio é não conseguir revender depois, com uma certa margem de lucro. Se puder me ajudar agradeço. Abraço.

  3. Sou policial civil e como o exército liberou armas de uso restrito para policiais, optei por uma taurus, 1911, .45, para defesa pessoal. Muitos colegas me criticam alegando que essa arma é obsoleta para tal objetivo, por ser pesada e de difícil manuseio bem como possuir carregadores monofilar com pouco capacidade de carga. Qual sua opinião ? Será que posso confiar numa arma dessa?

    1. Olá amigo, sou fá incondicional do modelo 1911, porém, devido a sua baixa capacidade de munições (8+1), EU não portaria essa arma para defesa, não por ser pesada, mas pelo simples fato de ter pouca capacidade. Uma IMBEL MD2 em .45ACP é bifilar e tem uma capacidade de 14+1, apesar de ser sim uma arma extremamente pesada para porte, e ser quase impossível portá-la de forma velada, é uma melhor opção para arma de porte do que a 1911.

      MAS! E isso é muito importante dizer, esta é apenas a minha opinião, de um civil! Eu não possuo porte de armas, e portanto não porto uma, cada um tem que ver suas necessidades e escolher a arma que melhor lhe convém!

      Um grande abraço

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