Caçada africana: Kalahari parte II

Esta é a parte II do meu artigo sobre minha primeira caçada africana, no deserto do Kalahari, na Namíbia, a primeira parte pode ser vista AQUI.

18.09: Sete da manhã todos estavam já tomando o café da manhã. Depois do café cada um foi se abastecendo com água, pegando as tralhas e cada um foi saindo para sua área de caça.

Eu voltei para mesma área do dia anterior, onde derrubei o Springbuck afim de tentar localizar a zebra Solitária ou outra manada

Nesse dia, quem me acompanhava era novamente Old Freddie e também seu neto Little Freddie – pode parecer estranho, mas lá é costume o filho mais velho carregar o nome do pai e nesse caso estavam na 5 geração com o mesmo nome, sendo que usavam dos termos “old” e “ young ou little” para distinguir um do outro – enquanto nos dirigíamos para a área de caça avistamos, a alguns quilometro dali, uma grande manada de zebras cruzando as dunas. Paramos o carro e demos inicio a perseguição. Essa caçada foi muito complicada, a manada se movimentava em sentido contrário ao nosso e quase nunca parava, além disso, não tínhamos vento favorável, o que limitava ainda mais nossa distância máxima para o grupo. Depois dessa longa caminhada o grupo de zebras parou em uma área muito aberta e foi ai que meu PH abriu o tripé e liberou tiro. Perguntei a ele em qual deveria atirar e ele me respondeu que na que eu escolhesse. Destravei o rifle e apoiei no suporte, e fui logo na primeira zebra que estava totalmente de lado e descoberta, me parecia um animal grande e de pelagem bonita.

Coloquei a cruz da luneta em sua paleta e subi a mira 1 palmo, calculando que o animal estaria a +- 220/250m. Com calma puxei o gatilho e todos ouvimos o som do impacto do projétil no animal, confirmado o acerto mas ao mesmo tempo tudo virou uma bagunça de zebras correndo e não conseguimos distinguir qual o animal ferido, sendo que percebemos que uma delas correu em sentido contrário da manada mas não aparentava estar baleada. O restante da manda correu para minha direita e parou alguns metros mais a frente, buscamos por algum sinal do animal ferido, mas logo elas voltaram a correr, sumindo entro a vegetação e as dunas. Confesso que foi a pior sensação que tive durante toda a caçada, sabia que tinha acertado o bicho mas temia por um mau tiro, já que todos correram sem apresentar nenhum sinal de ferimento mortal. Comentei isso com o Old Freddie e o mesmo me disse para ficar tranquilo e não esquecer que aquele era um dos animais africanos mais resistentes.

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Zebra

Depois de uns 10min fomos até o local que a manada se encontrava na busca de encontrar sangue, nos dividimos e logo encontrei o local do impacto. Havia sangue mas nada de muita quantidade. Começamos a seguir a trilha e logo encontrei um pedaço de osso e o volume de sangue foi aumentando, assim como a quantidade de ossos encontrados. Depois de percorrer 800m encontrei a zebra caída a uns 200m de nós. Aparentemente estava morta,mas assim que nos sentiu levantou e tentava caminhar, mas não conseguia se manter muito tempo em pé pois meu tiro lhe havia destruído uma das patas dianteira, nisso pedi para o Old Freddie abrir o tripé que eu daria mais um tiro para terminar com o sofrimento do animal, apoie e atirei na paleta. Novamente foi possível ouvir o impacto do projétil e em seguida a zebra caiu morta.

Voltamos até o local do primeiro ponto de sangue e medimos a distancia ate o local de onde atirei, foram incríveis 340m!!!!!!! Isso explicava, meu tiro foi baixo, fui enganado pelo tamanho do bicho e por isso calculei mau a distância.

Ai começou, aconteceu uma das coisas mais “engraçadas” da caçada, que foi o sumiço do Little Freddie. Seu avô pediu que ele fosse buscar a caminhonete e voltasse para nos apanhar, depois de uma meia hora nem sinal do Fredinho voltar, seu avô começou a xingar o muleque de tudo quanto era jeito, que não era possível ele ter se perdido e tal…rsrsrs… A maior preocupação dele era que a zebra caiu no meio de uma duna e a temperatura é muito alta e Old Freddie temia pela perda da carne exposta ao sol. Foi então que ele resolveu ir atrás do neto e eu fiquei junto da zebra pra evitar que os abutres (que já voavam sobre ela) estragassem o couro. Depois de quase 1 hora apareceu Old Freddie com a caminhonete, mas sem sinal do Fredinho. Old Freddie já tinha passado rádio para as outras duas turmas e eles foram ajudar a carregar o bicho na caminhonete. Quando já estávamos quase indo embora eis que aparece o meto, falou que se perdeu e começou a andar em círculos até achar a trilha de volta, além de ter sido guiado pelo som das caminhonetes também.

Terminava assim meu dia de caça, com um dos bichos que é o símbolo do safári africano, afinal ir caçar na África e não derrubar uma zebra é igual ir a Roma e não ir ao Vaticano!

Voltamos todos para sede da fazenda para descarregar os animais e lá já se encontrava meu pai e Freddie com um Impala e um lindo Black Gnu. Como só me restava o Orix para completar meu pacote, resolvi não caçar no resto do dia e fui com um dos amigos atrás do Kudu e da Black Face Impala. Andamos mais de 10km seguindo rastros e tivemos a menos de 60m dos Kudus, mas sempre tinha algum motivo que não nos deixava atirar. Hora eram Gnus que nos denunciavam ou pássaros e mesmo o vento inconstante.

Voltamos exaustos, sem água e já no escuro para casa. Novamente, banho e camp fire.

leia tambem:Caça esportiva, a grande aliada da conservação…

19.09: Esse dia acordamos antes do normal, levantamos as 5:30 para às 6 horas sairmos em direção a fazenda do pai do Nicolas, lá, tentaríamos caçar meu Orix e um de nossos amigos um Eland. O frio judiava esse dia e a viagem na caçamba da Hillux foi complicada!!

Chegando lá fomos apresentados ao dono da casa e tomamos um rápido café de pão recheado, biltong e umas Cocas. Nada mau para as 6:30 da manhã!! Demos uma rápida olhada na sala de troféus da casa e realmente era fascinante. Uma diversidade incrível de animais, todos caçados naquela propriedade e com o potente .243 WIN!!!!!!!

Depois dessa rápida conversa, nos dividimos e, cada um foi para um lado da fazenda. Ai começava a caçada mais complicada da minha vida.

Chegamos a uma área e começamos a buscar por pegadas frescas de Orix. Após encontrá-las andamos uns 30min quando surpreendemos um grupo de Kudus, até tentamos nos aproximar, já que meu pai tinha um desses na sua lista, mas foi improdutiva. Pouco tempo depois achamos um unico Órix sob uma duna. O animal estava a mais de 600m de distância e Nicolas não conseguia distinguir se era macho ou fêmea e achava estranho ele estar só. Passou nada e o animal nos sentiu e saiu correndo, foi ai que vimos que o resto da manada estava encoberta no pé da duna. Os animais correram e tentamos cortar volta para alcança-los. Logo achamos a manada novamente e a mesma, agora, vinha em nossa direção, como o vento nos era favorável nos escondemos atrás de um arbusto e aguardamos que chegassem perto, até conseguir distinguir o macho para o tiro. Passado alguns minutos os animais pararam e conseguimos distinguir 2 machos entre as fêmeas, um deles estava em boa posição para tiro, o tripé foi aberto e me posicionei para o disparo. Um tiro relativamente fácil, o animal estava de frente para nós a não mais que 80/90m e eu estava ajoelhado e apoiado no tripé, não tinha como perder o tiro. Puxei o gatilho já esperando escutar o som da pancada do projétil no bicho e ver ele caindo, mas para minha surpresa não se ouviu nenhum som de impacto e pude ver o poeirão que a ponta levantou ao atingir o chão. Havia errado o tiro, ele passou a 1 palmo a direita do bicho. A manada correu em disparada para o outro lado da duna e nós saímos correndo atrás para tentar alcança-la – pense em correr na areia fofa, com mochila e mais uns 7kg de rifle e tralha – a manada não correu muito longe, e logo a alcançamos. Ainda estava inconformado com o tiro errado e não entendia como podia ter errado um tiro besta daqueles.

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Aproximação feita com extrema cautela.

Depois de localizar os animais novamente o jogo de gato e rato começou. A área era extremamente limpa e o vento mudava a toda hora de direção, resolvemos sentar na sombra de um arbusto e esperar que a manada se aproximasse ou desse condição de tiro. O tempo foi passando e os animais se acalmaram de tal maneira que era possível vê-los deitando, mas era impossível atirar, já que estavam a mais de 600/700m, mas também era impossível sair de nosso abrigo sem sermos detectados. Ficamos ali, imóveis, por mais de uma hora até que Nicolas disse para tentarmos rastejar até uma árvore a uns 150m à nossa frente, para, dali, tentar atirar. Na hora concordei e fomos somente Nicolas e eu, já que meu pai ficaria para trás, assim seria 1 pessoa a menos para poder alertar os bichos. Primeiro engatinhamos e a areia quente esfolava os joelhos, demoramos uns 10min para andar poucos metros. Depois disso foi barriga na areia e uns 30min para percorrer os 100m que restavam, rastejávamos no momento que os animais abaixavam as cabeças para comer, detendo-nos quando levantavam, e assim foi, até finalmente chegar na árvore. Vale descartar a pericia do nosso PH, que, a cada metro rastejado apanhava bocados de vegetação e usava como “escudo”, tentando assim, ocultar mais ainda nossa silhueta.

Bem, depois de chegar à árvore, me posicionei para atirar deitado – o primeiro da minha vida – apoiei o cano na árvore e perguntei pro Nicolas qual a distância até os bichos, ele me disse que uns 400m. Aquilo me assustou, pois, jamais fiz um tiro desses, mas estava confiante e mais esperto do desconto que teria que dar, por conta do tiro da zebra. Ficamos naquela posição, sem poder nos mexer, por 50min. Os animais estavam escondidos por uma moita de espinhos, as vezes alguns saiam no limpo, mas sempre eram as fêmeas, apenas em 1 momento um dos machos saiu, andou uns 10m, deu meia volta, voltou pro sujo e deitou.

Já estava impaciente e cansado, quando o Nicolas mandou eu atirar no macho deitado. Falei que da onde eu estava só via o animal da linha dos olhos pra frente e uma parte dos chifres, junto ao pé da árvore, mas mesmo assim ele me disse para atirar. Perguntei se realmente era verdade e ele fez sinal que sim. Destravei o rifle, joguei a mira uns dois palmo pra cima e puxei o dedo, o tiro acertou a árvore um pouco mais alto que o topo da cabeça do bicho. A manada levantou, mas permaneceu no lugar. Acredito que por não saber de onde tinha vindo o barulho, não correram.

Com o tiro os animais começaram a se movimentar mais, mas ainda assim sem que os machos se mostrassem por tempo suficiente.

Até que finalmente um deles saiu no limpo e ficou de lado pra mim, Nicolas deu o OK pro tiro. Lembro de ter tomado cuidado com a visada – a final, não queria abrir a testa novamente – coloquei a cruz da luneta 4 dedos pra cima da linha do lombo, seguindo a linha da mão do bicho e puxei o dedo. Demorou uma eternidade até a ponta chegar ao alvo, mas quando chegou, foi nítido o som da pancada e o bicho caiu como que atingido por um raio. Mas do mesmo jeito que bateu no chão levantou e correu pra traz da moita de espinhos, junto com a manda. Perguntei se tinha sido um bom tiro e o Nicolas disse que não viu onde tinha pego, pediu que aguardássemos meia hora para ir até o local e procurar. Passado 10min, três fêmeas saíram assustadas de traz da moita e ficaram olhando fixamente para a direita, na hora falei pro Nicolas que tinha caído. Ele disse que provavelmente sim, mas que ainda assim esperaríamos mais uns 20min. Passou pouco tempo e a manada começou a sair do sujo e cruzar da direita pra esquerda, um por um, calmamente. Começamos então a olhar (ele pelo binóculos e eu pela luneta) se havia algum com sinal de sangue e também fomos contando quantos animais passavam, já que sabíamos que na manada eram 8 fêmeas e 2 machos. A cada animal que passava sem sinal de sangue minha ansiedade, e ao mesmo tempo tranquilidade, aumentava, até que finalmente passou o nono animal, todos sem sangue, e o décimo não apareceu com o resto do grupo.

O grupo passou a poucos metros de nós antes de verem meu pai e saírem correndo em disparada.

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Órix

Levantamos, tomamos uma água e dei uma mijada que já estava quase fazendo na calça!!! Além é claro de tirar um bom tanto de espinhos que fomos recolhendo com o corpo enquanto rastejávamos.

Recarreguei o rifle e fomos na direção que tinha corrido meu Órix, logo Nicolas viu ele deitado, ainda vivo, na sombra de uma árvore. Com cuidado chegamos perto e dei um tiro para finalizar, mas ERREI!!!  Como estava muito perto o tiro acabou passando por cima do pescoço do bicho, manobrei e ai sim peguei o troféu que mais me deu trabalho, e também, que me deu mais gosto de caçar!!

Achamos o lugar que o Órix foi atingido e Nicolas começou a contar a distância até o lugar do tiro, 372m!! Jamais na vida pensei em dar um tiro desse, com esse calibre e muito menos em caça. O tiro foi perfeito, pegou coração de raspão e pulmões, atravessando o animal de lado a lado.

Era uma caçada que tinha tudo para ter sido fácil e rápida, mas fomos forçados a dar o melhor de todos e a maior parte do êxito dela foi do nosso amigo e PH Nicolas, se não fosse todo seu conhecimento e truques, jamais teria conseguido aquele animal.

Me surpreendeu o tamanho do Órix,visto de longe parecia um monstro, mas quando chegamos perto, parecia um “bostinha de impala de chifre grande”. As longas pernas e chifres dão a ideia de ser um animal corpulento.

Tiramos as fotos de praxe e Nicolas fez o batismo africano, mesmo sendo no ultimo bicho, acredito que foi o melhor momento para tal, afinal, foi uma caçada primorosa e a aproximação mais linda que já fiz.

Na volta, a ótima noticia de que nosso amigo também tinha conseguido, a duras custas, um monstro de Eland

Voltamos felizes da vida para a sede, onde batemos um bom papo e apreciamos algumas fotos de caça do pai do Nicolas. Depois nos despedimos e voltamos para nossa fazenda.

Ainda naquela tarde saí com o outro amigo para tentar seu Ímpala de cara preta ou Kudu, que lhe faltava para completar o pacote. Onde conseguimos o Black Face Impala, animal interessante por ser endêmico daquela região da África.

E assim terminou o dia no camp fire, com muitas conversas, piadas e agora eu tirando sarro nos outro pelo tiro de “isnaipe”!!rsrsrsrs

Caçada africana: Kalahari final.

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Criador do blog Firearms Brasil. Atirador Informal, Técnico em Informática, mineiro e apaixonado pelo mundo das Armas de Fogo.

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