Caçada africana: Kalahari – Final

Este artigo é a continuação sobre a história de minha caçada africana, no Kalahari, a primeira e a segunda parte podem ser vistas aqui e aqui, respectivamente.

20.09: Novamente caímos da cama de madruga, já que saimos atrás do último animal de meu pai às 6 horas.

Como nosso outro amigo, que também tentava um Kudu, já estava a 2,5 dias andando atrás deles e não conseguia êxito, e eu havia participado de quase toda a caçada, alertei meu pai que provavelmente nosso dia seria longo e cansativo, que devíamos levar grande quantidade de água para não ficarmos sem no meio da jornada. Nos abastecemos, tralha carregada, saímos em direção a uma zona que eu havia tentado durante a tarde anterior inteira o Kudu com o outro amigo, mas sempre algo dava errado e não era possível atirar. Essa área era mais fechada, com várias arvorezinhas e uma vegetação rasteira cheia de espinhos que alcançava a linha da cintura.

Descemos da caminhonete e com cuidado e total silêncio Freddie começou a procurar por pegadas frescas, seguíamos buscando já a uns 30min quando vejo a poucos metros um lindo Kudu, parado entre dois arbustos nos olhando, até o mesmo começar a sair de lado, sem se importar muito com a nossa presença. Como o Freddie tinha falado que o animal do meu pai seria um “young” kudu, pensei comigo: “Bom, ele viu esse Kudu e como é muito grande não falou nada.” Andamos mais 10m ate que o Freddie finalmente viu o animal, que estava a pouco menos de 50m de nós, imediatamente falou para meu pai atirar, sem nem dar tempo de abrir o tripé. Meu pai levou a arma no rosto e puxou o dedo, todos ouvimos a pancada no bicho e o mesmo sumiu entre os arbustos. Começamos a procurar e de longe vi um lindo Kudu andando, mas não era o nosso e sim um outro macho que com o tiro se afastava lentamente. Andamos mais um tanto e novamente achei outro Kudu que caminhava a 200m da gente, perguntamos se era aquele e Freddie disse que achava que sim, abriu o tripé e disse que meu pai atirasse outra vez. O animal deu um salto, acusando o impacto e vi quando o mesmo caiu depois de uma curta corrida.

Fomos chegando perto e logo achamos o Kudu já morto. Era um animal lindo, muito diferente do que imaginávamos que caçaríamos. Para nós seria um animal jovem com pouco mais de 1 volta de chifre, mas tínhamos caçado um macho velho, com  49 ½” de chifres, pontas brancas, perfeitamente simétricos e abertos, um dos mais belos troféus africanos!!

É incrível como a caça tem suas surpresas. A caçada do Grey Ghost, tido pela maioria dos caçadores como uma das mais difíceis dentre todas a espécies, não tinha demorado mais que 1 hora entre sair de casa e abater o bicho. Fotos e mais fotos, pois o animal merecia. Depois carregamos o bicho e voltamos para a sede onde ainda deu tempo de pegar o café da manhã.

Nesse dia, como já tínhamos conseguido todo nosso pacote, aproveitamos para dar uma organizada na mala. Eu fui com o Freddie encontrar os outros companheiros que ainda tentavam cumprir seus animais, e depois do almoço fui para um Water Hole tentar tirar algumas fotos. Enquanto me dirigia para o Blind, sozinho, acabei levantando uma fêmea de Eland, que saiu correndo, mas ainda deu tempo de umas fotos.

Estávamos perto das duas da tarde e o calor era escaldante, junto com um vento que chegava a varrer as areias do deserto, acabei me deitando no blind e tirei um cochilo. Acordei com um tiro próximo dali e logo em seguida mais dois disparos seguidos. Pouco tempo depois, vindo de outra direção, escutei outro disparo, eram os companheiros, um finalmente tinha pego o Impala da cara preta e a mulher do outro havia errado um Blue Gnu. Logo a caminhonete apareceu para me apanhar e voltamos para casa. Nesse dia ninguém mais saiu para caçar, todos estavam exaustos e só restava um amigo para completar a cota, que era justamente um kudu.

Esse dia fizemos um belo churrasco na janta, com carne de Zebra, Orix, linguiças de Springbuck e uma costelinha 1016540_535541406524046_79194546_ncom barbecue que estava deliciosa. Nessa noite o grupo foi reforçado com a presença da esposa de Freddie e sua filha, assim como a filha de Nicolas.

Muita diversão e acabamos de nos despedir do Nicolas e sua esposa Lola, que naquela noite voltariam para a fazenda deles.

A noite estava gelada e ainda nos restava um dia, onde era questão de honra conseguir o Kudu do amigo, que me perguntou se eu iria na empreitada pela madrugada, eu prontamente disse que sim, afinal, companheiro é companheiro e “fiadaputa” é “fiadaputa”. Assim fomos dormir, já que as 6 horas do dia seguinte deveríamos estar no mato.

21.09: Como combinado as 6 da manhã estávamos todos prontos. Esse era o dia mais frio que enfrentamos, o vento fazia que o frio chegasse a machucar!

Quando saímos pro mato, Freddie disse que caberia um dentro da cabine. Na hora falei que eu iria na carroceira sem problemas, mas meu companheiro logo retrucou “companheiro é companheiro e “fiadaputa” é “fiadaputa” e se juntou a mim na caçamba da Toyota. O frio era tanto que fomos sentados no chão, encostados na cabine tentando nos proteger do frio.

Fomos para a mesma área da caçada do dia anterior, mas chegamos por um outro lado e começamos a busca pelas pegadas frescas, andamos e não achamos nada, eis que no mesmo lugar onde meu pai derrubou o Kudu dele no dia anterior nosso PH viu um movimento e começamos a buscar o que era. Logo vimos que eram Kudus, mas apenas 3 fêmeas e um macho que não teria mais de 30cm de chifres. Ficamos algum tempo ainda esperando para ver se haveria algum macho grande escondido, mas nada foi localizado. Seguimos buscando por rastros, e nesse meio tempo vimos uma infinidade de animais, mas nada de Kudus ou pegadas novas.

Depois de mais de 1 hora de caminhada finalmente achamos pegadas frescas, era um grupo com 3 fêmeas e 2 machos (um jovem e um bull) – detalhe: Isso o Freddie concluiu apenas olhando as pegadas deixadas na areia fofa.

Começamos a seguir o grupo, parecia que tínhamos perdido a batida até que finalmente achamos bosta fresca e 551266_535541696524017_1926099249_nquente. Nessa hora pediu que nosso amigo se preparasse para topar com os bichos a qualquer momento. Seguimos andando e agora era uma mancha de urina, também fresca, e logo a frente mais bosta. Parecia que a caçada se aproximava do fim, mas fomos andando, andando e nada de chegar nos bichos. O grupo de animais cruzaram áreas de vegetação fechada e grandes áreas limpas, mas sempre com muita distancia da gente. Foi ai que depois de descer uma duna e andar poucos metros e cruzar uma cerca, nosso guia abaixou e pediu que nosso amigo atirasse no animal que estava deitado, bem de frente pra gente, na sombra de uma moita de espinhos. Rapidamente meu amigo apoiou a arma no ombro do PH e quando o Kudu fez sinal que levantaria o tiro partiu e o animal acusou o impacto, correndo poucos metros antes de cair. O tiro de .30-06 tinha sido perfeito. Se demorasse meio segundo para atirar o tiro passaria por baixo e teríamos que começar tudo do zero!

Com cuidado fomos chegando e o animal já estava morto. A alegria foi tremenda. Aquele animal tinha virado questão de honra para todos. Andamos aproximadamente 8/9 km até finalmente conseguir ver e atirar nele.

Na volta para casa, perguntamos como Freddie sabia em qual deveríamos atirar, já que o lance foi muito rápido e ele não olhou pelos binóculos para ver qual era macho e qual era grande. A resposta foi simples: “Nós andamos uns 9km sem parar, isso, para as fêmeas e para o macho jovem, não é nada, mas para um macho velho e com grandes chifres é demais. Portanto, o único animal que estaria deitado para descansar era o velho macho”. Uma coisa que depois de dita fazia todo o sentido, mas que jamais pensaríamos nisso no calor do momento!

Chamamos o carro pelo rádio e todo o resto do grupo veio ver o custoso Kudu, que depois de 3 dias finalmente havia caído. Era um animal muito velho, com um lindo chifre de 47 ¾” e grandes pontas brancas. Fizemos várias fotos e voltamos para casa, todos rindo e brincando com o sucesso do amigo.

1376442_535541746524012_259784520_nEra nosso último dia na fazenda, mas ainda nos restava a tarde toda livre. Arrumamos as coisas rapidamente e Freddie nos levou para conhecer uma fazenda de um amigo que faz divisa com a Botswana. Segundo ele nos contou é uma das melhores áreas para se caçar leopardos do país e que a cada 2 ou 3 dias eles perdem carneiros para os Leopardos, Hienas, Cheetas e ate mesmo Leões, que saem do parque do Kalahari, no país vizinho, pegam os carneiros no lado da Namíbia e carregam a presa de volta para Botswana.

Voltamos para a fazenda e ainda tivemos tempo de conhecer os animais que vivem em piquetes fechados, para reprodução e adaptação na fazenda. Nesses piquetes eles contam com Roans, Sables, Nyalas, Springbucks brancos e negros e Red Lechewes. O frio e o vento era coisa de assustar e meu pai quase que pediu arrego! kkkkkk

Voltamos para a sede, onde terminamos de arrumar as malas e fomos para nossa última noite no Camp Fire, essa noite foi uma mistura de alegria, por todos terem cumprido seus pacotes, pelas novas e velhas amizades fortalecidas, mas também de tristeza, já que no dia seguinte eu e meu pai voltaríamos para Windhoek e nossos amigos iriam até Mariental onde pegariam uma 4×4 para 4 dias de passeios pelo litoral.

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Criador do blog Firearms Brasil. Atirador Informal, Técnico em Informática, mineiro e apaixonado pelo mundo das Armas de Fogo.

3 COMENTÁRIOS NO ARTIGO: “Caçada africana: Kalahari – Final

  1. Oi, Ricardo. Parabéns pelos relatos. Caçar na África é um privilégio. Para ir nesta fazenda na Namíbia vc usou algum intermediário no Brasil? Ou já conheciam o dono? abç

  2. Ihhhh… Desse jeito as armas nunca serão liberadas no Brasil.Aqui a caça é algo repudiado.Arma só pra defesa morô?

    1. Olá amigo, sinto lhe informar, mas não, as armas no Brasil (e no mundo) não servem apenas para defesa. Existem inúmeras modalidades esportivas que se usam Armas de Fogo, além de claro, da caça. A caça é repudiada por aqueles que conhecem pouco do assunto e pensam que esta prática serve para alimentar algum desejo sádico de matar algum ser vivo, quando na verdade não é assim que funciona. Você pode ver aqui neste link: http://firearmsbrasil.com.br/caca/caca-esportiva-a-grande-aliada-da-conservacao/ e saber um pouco mais sobre a caça. Inclusive, a caça de Javalis no Brasil, fazendo uso de armas de fogo, é liberada, bastando ter apenas uma licença de caça expedida pelo IBAMA, e um CR de caçador (caso queira utilizar armas de fogo para a caçada) expedido pelo Exército Brasileiro. Com CR de caça pode-se adquirir armas de diversos calibres, como .308 Win, .223 Rem., .30-06 Spg., dentre outros calibres considerados restritos até mesmo para atiradores esportivos.

      Obrigado

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